segunda-feira, 25 de julho de 2016

Martinha

Quando lúcida, minha vó pede para morrer. Por sorte, nem sempre ela está perfeitamente consciente, e assim chega a sorrir. Eventualmente percebe que lhe falta metade de uma orelha e, diante do espelho, pode ver seu rosto entortado, semi-paralisado, e assim volta a chorar.

Têm dias em que ela passeia e volta a sorrir, mas logo retorna à clinica (ComVivência) e se dá conta de que lá foi deixada. Eu tenho filhas, para que convivência?, ela me perguntou repetidas vezes chorando. Lá eles podem te cuidar melhor, vó, mas eu sei que é mentira. Nessa fase, é preciso mentir sempre.

Nessa fase, não se deve fazer perguntas. É preciso embarcar no mais estranho dos assuntos com tranquilidade. Essa almofada é nova, não é? É, sim. Essa almofada foi aquele menino da rua quem me vendeu. Ah, é? Foi cinco reais. É bonita, né? Foi um menino quem me vendeu, ali na porta de casa, acho que ele vende rapaduras também.

Hoje é dia dos avós, portanto, dia de convivência. Comemorar qualquer coisa que seja numa clínica de idosos é deprimente. Quem negar está mentindo, ainda que para si mesmo. Apesar de confuso, vai ser um dia até que bom. Ela vai estar com as filhas e vai sorrir. Ela está cegando de um olho e com um câncer crescendo em seu rosto. Mas não é tão ruim assim, logo ela vai esquecer.

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