Quando lúcida, minha vó pede para morrer. Por sorte, nem sempre ela está perfeitamente consciente, e assim chega a sorrir. Eventualmente percebe que lhe falta metade de uma orelha e, diante do espelho, pode ver seu rosto entortado, semi-paralisado, e assim volta a chorar.
Têm dias em que ela passeia e volta a sorrir, mas logo retorna à clinica (ComVivência) e se dá conta de que lá foi deixada. Eu tenho filhas, para que convivência?, ela me perguntou repetidas vezes chorando. Lá eles podem te cuidar melhor, vó, mas eu sei que é mentira. Nessa fase, é preciso mentir sempre.
Nessa fase, não se deve fazer perguntas. É preciso embarcar no mais estranho dos assuntos com tranquilidade. Essa almofada é nova, não é? É, sim. Essa almofada foi aquele menino da rua quem me vendeu. Ah, é? Foi cinco reais. É bonita, né? Foi um menino quem me vendeu, ali na porta de casa, acho que ele vende rapaduras também.
Hoje é dia dos avós, portanto, dia de convivência. Comemorar qualquer coisa que seja numa clínica de idosos é deprimente. Quem negar está mentindo, ainda que para si mesmo. Apesar de confuso, vai ser um dia até que bom. Ela vai estar com as filhas e vai sorrir. Ela está cegando de um olho e com um câncer crescendo em seu rosto. Mas não é tão ruim assim, logo ela vai esquecer.
segunda-feira, 25 de julho de 2016
sexta-feira, 15 de julho de 2016
Wim Wenders e Desaprendenders
Nos últimos tempos, volta e meia me vinha à mente um cineasta inicialmente talentoso e sua perda de rumo, Alejandro Amenábar. Pode ser difícil entender quando um cineasta de características notáveis se deixa levar pelo mar de putrefação da vida.
O que dizer de Wim Wenders? Nome essencial do Novo Cinema Alemão das décadas de 60 e 70, nosso amigo Wim foi descendo ladeira abaixo, atingindo resultados que podem chegar a ser realmente perturbadores. É o caso de seu mais recente trabalho, Tudo Vai Ficar Bem, em que um escritor deprimido atropela e mata uma criança, fato que marca sua vida e a do irmão do morto, também presente no ato.
Eu gosto do James Franco. Há quem não goste, mas é inegável que tem algumas belas interpretações, como a do traficante em Segurando as Pontas. É difícil entender por qual misterioso caminho Wenders guiou o ator, fato é que James está simplesmente terrível em diversos momentos. Aliás, nenhum dos bons atores do filme consegue entregar um trabalho digno de nota. Passando por cima disso, o roteiro do filme é constrangedor. O uso de passagens do tempo chega a ser divertido: dois anos depois, quatro anos depois, dois anos depois e por aí vai. E a condução de tudo... O que dizer do horrendo/constrangedor plano final do filme?
A câmera se movimenta bastante, sem necessidade, com muitos travellings para tudo quanto é lado. O uso do travelling de aproximação com zoom é repetido diversas vezes, sempre com resultados bastante questionáveis. A trilha sonora pontua cada emoção com a maior obviedade. Tudo soa como o trabalho de um sub-sub-diretor de filme de festival.
No fim das contas, mais uma lição do mundo: ele dá voltas, e amanhã nós podemos ser o mendigo que está dormindo na calçada, como já me praguejou uma moradora de rua, descontente com minha negativa às suas investidas.
O que dizer de Wim Wenders? Nome essencial do Novo Cinema Alemão das décadas de 60 e 70, nosso amigo Wim foi descendo ladeira abaixo, atingindo resultados que podem chegar a ser realmente perturbadores. É o caso de seu mais recente trabalho, Tudo Vai Ficar Bem, em que um escritor deprimido atropela e mata uma criança, fato que marca sua vida e a do irmão do morto, também presente no ato.
Eu gosto do James Franco. Há quem não goste, mas é inegável que tem algumas belas interpretações, como a do traficante em Segurando as Pontas. É difícil entender por qual misterioso caminho Wenders guiou o ator, fato é que James está simplesmente terrível em diversos momentos. Aliás, nenhum dos bons atores do filme consegue entregar um trabalho digno de nota. Passando por cima disso, o roteiro do filme é constrangedor. O uso de passagens do tempo chega a ser divertido: dois anos depois, quatro anos depois, dois anos depois e por aí vai. E a condução de tudo... O que dizer do horrendo/constrangedor plano final do filme?
A câmera se movimenta bastante, sem necessidade, com muitos travellings para tudo quanto é lado. O uso do travelling de aproximação com zoom é repetido diversas vezes, sempre com resultados bastante questionáveis. A trilha sonora pontua cada emoção com a maior obviedade. Tudo soa como o trabalho de um sub-sub-diretor de filme de festival.
No fim das contas, mais uma lição do mundo: ele dá voltas, e amanhã nós podemos ser o mendigo que está dormindo na calçada, como já me praguejou uma moradora de rua, descontente com minha negativa às suas investidas.
quarta-feira, 13 de julho de 2016
Títulos estão ultrapassados
Se em minha primeira postagem escrevi sobre cinema, seria natural uma segunda acerca do mundo da adiposidade. Entretanto, não vejo como propícia a imposição de determinados tipos de regras. Não sou contra elas, não se enganem - alimentar os animais no zoológico é mesmo condenável -, mas delas também não posso fazer pauta relevante, não há chuva em período de seca ou sei lá o quê. Já a depressão é algo que nos acompanha, ou não, um estado de espírito sobre o qual podemos silenciar, pois, ainda assim, estará manifesto.
Almodóvar voltou aos cinemas com Julieta. Não é uma obra merecedora de maiores críticas, embora longe do melhor do diretor, parece ser um daqueles casos de bateu ou não bateu. Não há nada particularmente desastrado no filme, talvez uma mise-en-scène um tanto medíocre, abaixo do padrão que eu esperaria. O grande problema é a falta de comunicação em um nível emocional, o que torna a experiência um tanto morna. De toda forma, como mencionei, o filme parece funcionar para algumas pessoas, então: boa sorte.
No Netflix, para quem gosta de suspenses com pé no terror, vale conferir The Invitation, de Karym Kusama, diretora que já nos brindou com pérolas do tipo Aeon Flux e Garota Infernal, mas aqui surpreende com uma direção segura, mantendo uma atmosfera tensa e a constante sensação de que alguma coisa está errada em um 'simples' jantar entre amigos.
Para quem gosta de uma básica mistura de drama, comédia, romance, suspense, terror, gore, sobrenatural e fantasia, temos Amaldiçoado (Horns), do Alexandre Aja, um filme que demorei bastante para ver e se revelou tão torto quanto interessante. Crescem chifres no Harry Potter e ele precisa descobrir quem matou sua amada.
Nos cinemas, também é possível se entediar com Procurando Dori, que é exatamente o que eu esperava: um caça-níquel desnecessário e sem imaginação. A Pixar realmente já viveu dias melhores.
Quero finalizar, hoje, com um salto para a vida, sem rede de proteção, como deu Jair Bolsonaro há uns dias atrás. Bolsonaro nos faz pensar no quanto é importante se arriscar na vida, é do risco que tiramos nossas maiores lições. Só não tentem me segurar, ou a coisa vai ficar feia pra vocês.
Um abraço.
P.S.: Boa viagem, Harres!
Almodóvar voltou aos cinemas com Julieta. Não é uma obra merecedora de maiores críticas, embora longe do melhor do diretor, parece ser um daqueles casos de bateu ou não bateu. Não há nada particularmente desastrado no filme, talvez uma mise-en-scène um tanto medíocre, abaixo do padrão que eu esperaria. O grande problema é a falta de comunicação em um nível emocional, o que torna a experiência um tanto morna. De toda forma, como mencionei, o filme parece funcionar para algumas pessoas, então: boa sorte.
No Netflix, para quem gosta de suspenses com pé no terror, vale conferir The Invitation, de Karym Kusama, diretora que já nos brindou com pérolas do tipo Aeon Flux e Garota Infernal, mas aqui surpreende com uma direção segura, mantendo uma atmosfera tensa e a constante sensação de que alguma coisa está errada em um 'simples' jantar entre amigos.
Para quem gosta de uma básica mistura de drama, comédia, romance, suspense, terror, gore, sobrenatural e fantasia, temos Amaldiçoado (Horns), do Alexandre Aja, um filme que demorei bastante para ver e se revelou tão torto quanto interessante. Crescem chifres no Harry Potter e ele precisa descobrir quem matou sua amada.
Nos cinemas, também é possível se entediar com Procurando Dori, que é exatamente o que eu esperava: um caça-níquel desnecessário e sem imaginação. A Pixar realmente já viveu dias melhores.
Quero finalizar, hoje, com um salto para a vida, sem rede de proteção, como deu Jair Bolsonaro há uns dias atrás. Bolsonaro nos faz pensar no quanto é importante se arriscar na vida, é do risco que tiramos nossas maiores lições. Só não tentem me segurar, ou a coisa vai ficar feia pra vocês.
Um abraço.
P.S.: Boa viagem, Harres!
terça-feira, 5 de julho de 2016
O começo e o fim
Criei esse blog no dia 3 de julho, um dia antes da notícia da morte do (realmente) genial Abbas Kiarostami.
Acabei optando pelo preto completo, sem qualquer adorno, mas, antes disso, testei duas imagens no layout. A primeira era uma foto clicada por Abbas, que era (é) um grande fotógrafo. A segunda, o último plano de Cópia Fiel, seu penúltimo filme, apenas uma entre suas obras-primas. Se meu blog estampasse imagem, seria uma das suas. Mas não. Foi o preto.
Meu primeiro contato com o cinema de Kiarostami é uma espécie de mistério. Não consigo precisar a data ou obra. Lembro, sim, do primeiro filme iraniano a que assisti: O Jarro, de Ebrahim Foruzesh. Tinha entre 13 e 14 anos de idade. Foi quando descobri o cinema iraniano e, curiosamente, me vi procurando por todo material que chegava por aqui. A partir de 2003, aos 18 anos, durante a faculdade de cinema, passei a me aprofundar na obra do Abbas, que já não me era estranha.
Não saberia dimensionar a importância da obra de Kiarostami em minha vida, por mais complicado que seja para alguns de vocês entender a força que a arte pode exercer sobre humanos. Desde sempre, muito pequeno, aluguei filmes com minha mãe e fui ao cinema com meu pai, a base de tudo, mas foi nessa época dos 13 anos de idade que passei a realmente sentir o cinema de uma forma muito intensa. Lembro de sair extremamente impactado da sessão de Tempestade de Gelo, do Ang Lee. Essas primeiras vezes em que sentimos as coisas sem compreendê-las totalmente são muito especiais. Nessa época, tive a sorte de ir ao cinema semanalmente com minha tia Vera e de receber dicas de cineastas e filmes da minha professora de português Gilnara, hoje grande companheira das minhas sessões de cinema.
Desde então, muito mudou, mas nunca minha admiração por Kiarostami, que só cresceu. Sua obra tem a raríssima qualidade de aliar o intelecto e a emoção em perfeita medida. Por mais que tenha investigado e experimentado a linguagem do cinema, sempre o fez a partir do material humano e sensível, sem pompa e má pretensão. Não pretendo, aqui, tentar resumir sua obra em poucas palavras; a mídia está se ocupando dessa parte, com textos bastante insuficientes sobre sua carreira. Apenas convido a todos para procurarem por seus filmes, pela primeira ou décima vez, como eles merecem.
Difícil começar o blog assim, pelo fim, e, ainda por cima, lidando com minhas atuais limitações enquanto escritor. Criei esse blog atendendo a pedidos e, também, porque eu estou MUITO enferrujado. Sentar para escrever qualquer coisa tem sido uma tarefa difícil para mim, que sempre tive a maior facilidade. Meus problemas com exposição e autoexigência também são bastante consideráveis, e aqui pretendo trabalhá-los - sendo ridículo em um blog bastante pessoal, mal pensado e só com primeiras versões. Se alguns poucos amigos tiverem interesse na leitura, já será suficiente.
Um abraço.
Acabei optando pelo preto completo, sem qualquer adorno, mas, antes disso, testei duas imagens no layout. A primeira era uma foto clicada por Abbas, que era (é) um grande fotógrafo. A segunda, o último plano de Cópia Fiel, seu penúltimo filme, apenas uma entre suas obras-primas. Se meu blog estampasse imagem, seria uma das suas. Mas não. Foi o preto.
Meu primeiro contato com o cinema de Kiarostami é uma espécie de mistério. Não consigo precisar a data ou obra. Lembro, sim, do primeiro filme iraniano a que assisti: O Jarro, de Ebrahim Foruzesh. Tinha entre 13 e 14 anos de idade. Foi quando descobri o cinema iraniano e, curiosamente, me vi procurando por todo material que chegava por aqui. A partir de 2003, aos 18 anos, durante a faculdade de cinema, passei a me aprofundar na obra do Abbas, que já não me era estranha.
Não saberia dimensionar a importância da obra de Kiarostami em minha vida, por mais complicado que seja para alguns de vocês entender a força que a arte pode exercer sobre humanos. Desde sempre, muito pequeno, aluguei filmes com minha mãe e fui ao cinema com meu pai, a base de tudo, mas foi nessa época dos 13 anos de idade que passei a realmente sentir o cinema de uma forma muito intensa. Lembro de sair extremamente impactado da sessão de Tempestade de Gelo, do Ang Lee. Essas primeiras vezes em que sentimos as coisas sem compreendê-las totalmente são muito especiais. Nessa época, tive a sorte de ir ao cinema semanalmente com minha tia Vera e de receber dicas de cineastas e filmes da minha professora de português Gilnara, hoje grande companheira das minhas sessões de cinema.
Desde então, muito mudou, mas nunca minha admiração por Kiarostami, que só cresceu. Sua obra tem a raríssima qualidade de aliar o intelecto e a emoção em perfeita medida. Por mais que tenha investigado e experimentado a linguagem do cinema, sempre o fez a partir do material humano e sensível, sem pompa e má pretensão. Não pretendo, aqui, tentar resumir sua obra em poucas palavras; a mídia está se ocupando dessa parte, com textos bastante insuficientes sobre sua carreira. Apenas convido a todos para procurarem por seus filmes, pela primeira ou décima vez, como eles merecem.
Difícil começar o blog assim, pelo fim, e, ainda por cima, lidando com minhas atuais limitações enquanto escritor. Criei esse blog atendendo a pedidos e, também, porque eu estou MUITO enferrujado. Sentar para escrever qualquer coisa tem sido uma tarefa difícil para mim, que sempre tive a maior facilidade. Meus problemas com exposição e autoexigência também são bastante consideráveis, e aqui pretendo trabalhá-los - sendo ridículo em um blog bastante pessoal, mal pensado e só com primeiras versões. Se alguns poucos amigos tiverem interesse na leitura, já será suficiente.
Um abraço.
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